A nossa relatividade (ep. V)
Muitos dias passaram entre o episodio da caixa com o símbolo azul, muitas atrocidades fez com o seu corpo e com a sua alma, a maior parte delas hoje não se conhecem, não se vêem, ficaram escondidas por trás da pele, como que envoltas em máscaras, mas ele sabe onde estão todas, todos os dias ele as consegue ver, os espelhos passaram de confidentes a inimigos, cada reflexo traz memorias, cada ângulo traz a dor, cada bocado traz historias.
Hábitos antigos morrem dificilmente (tradução “rasca” de “old habits die hard”) e assim refinou com o tempo as agressões, as cicatrizes são agora profundas e não precisam de ser escondidas, nem promovem perguntas embaraçosas por um qualquer conhecido, sabem é que isto da morte não é apenas uma questão física, é primeiro uma questão psicológica, não é por acaso que quem tenta morrer uma vez e não consegue tenta sempre uma segunda, são hábitos que se criam e hábitos já diz a expressão morrem dificilmente.
Já não utiliza laminas, nem facas nem nada do género, as suas feridas agora são outras, escolhe causas perdidas, não sabe se pelo desejo de ser um qualquer herói ou se pelo prazer de cair, sim, não se deixem enganar há prazer no sofrimento, e cedo se apercebeu que gosta de cair, gosta da sensação de impotência que provoca uma queda desamparada, martiriza-se por não conseguir os seus intentos… A certa altura no meio destes dias todos numa consulta de terapia disseram-lhe que estava com uma depressão, por isso não conseguia funcionar, não dormia quando devia, estava apático sem espírito de iniciativa, mas na verdade ele sabia que a sua iniciativa estava intacta, sabia que a tinha mas estava reservada a fins mais obscuros, menos socialmente aceites, ele não era algo que mesmo numa cidade grande passasse despercebido daí o esforço que fazia permanentemente por não se mostrar, mesmo os seus amigos frequentemente em conversas mais acesas tinham receio dele, não pela violência que empregava nos seus argumentos mas pelo tom de voz, pelo olhar, nem sempre se consegue esconder o que vai cá dentro e, convêm dize-lo, nem sempre o queremos esconder, às vezes simplesmente queremos assustar as pessoas e ele sabia muito bem como o fazer.
Distinguia-se dos outros pelo seu olhar frio e postura sempre calma e reservada, intrigava-os em situações menos calmas pela sua postura. Dava-lhes alguma segurança, claramente pensavam “Se ele está tão calmo é porque já sabe como vamos sair desta…”, como daquela vez em que alunos de um liceu lhe fizeram uma espera à porta do colégio por causa de uma “alteração” com um deles uma semana antes, e se viu mais dois amigos no meio de tanta gente, não se lembra quantos eram, lembrava-se apenas que eram mais que eles e eram em numero suficiente para lhes fazerem uma “roda”, e que mesmo assim não havia no seu corpo e na sua cara qualquer rasgo de medo, ou de nervos, não é que não os sentisse mas aprendeu muito bem a camuflar tudo o que sentia, e isso desconcertava tanto quem lhe queria bem como quem lhe queria mal.
Este jogo das escondidas já o acompanha desde que nasceu por isso não admira que episódios semelhantes ao que referi, se tenham repetido vezes sem conta, nas mais variadíssimas situações, e que raras vezes as pessoas o tenham visto como ele é, um animal que tantas vezes se apresenta selvagem e seguro das suas capacidades como cheio de dúvidas e inseguranças, ao fim ao cabo semelhante a todos nós.



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